Por Dr. Alcirley de Almeida

A Medicina Baseada em Evidências (MBE), desde os anos noventa é considerada um importante pilar de integração entre cientistas, pesquisadores e a prática médica. O médico assistente é aquele que, exercendo a “arte da medicina”, propõe a conduta para o seu paciente, baseado nas melhores evidências científicas e em conformidade com as diretrizes recomendadas pelas suas respectivas sociedades de especialidades.

Não há dúvidas que a medicina atual, através do desenvolvimento tecnológico e científico, vem contribuindo para o aumento da qualidade e expectativa de vida em suas diversas áreas. Obviamente, este resultado só é possível devido aos inúmeros estudos científicos, com metodologias adequadas, que agregados à experiência clínica e ao desejo do paciente, nos permitem realizar a boa prática médica. A urgência imposta pela pandemia para a descoberta de um tratamento eficaz contra o novo coronavírus, vem pressionando a comunidade científica mundial, de tal modo que grupos políticos, principalmente no Brasil, estão interferindo e influenciando a população negativamente no enfrentamento à COVID-19. Sendo assim, observamos estarrecidos que médicos cientificamente atualizados até então, referências em suas especialidades, são frequentemente contestados por “experts” em uma doença nova e pouco conhecida, ou seja, são questionados e preteridos por pessoas “especialistas” em algo ainda não elucidado, causando conflitos e gerando insegurança na população. O explícito negacionismo exercido por indivíduos com grande influência política e amplo alcance nos meios de comunicação, dificulta o enfrentamento coordenado, harmonioso e eficaz contra o novo coronavírus, pois as recomendações habituais de usar máscara, manter o distanciamento social, evitar aglomerações, estimular medidas de higiene e orientar quanto à necessidade de busca por atendimento precoce, são desencorajados por atitudes contrárias à ciência.

A pandemia da COVID-19 colocou em dúvida o papel da MBE, pois com o argumento de que “se não ajudar, mal não faz”, tratamentos foram incorporados à prática clínica. Medicamentos prescritos simplesmente por experiência própria, e sem valor científico para uma doença altamente transmissível e com alta letalidade, constituem um grande equívoco, pois quando um tratamento comprovadamente ineficaz é utilizado por milhões de pessoas, muitos podem ser prejudicados pelos efeitos adversos. Isto nos remete a um dos princípios da medicina: “primeiro não prejudicar”! No decorrer da pandemia, após vários estudos clínicos, ficou comprovado que tais tratamentos, infelizmente, não funcionam para prevenção e tratamento da COVID-19. Então, qual é o real motivo para seguirmos nesta discussão?

Acredito que alguns questionamentos devem ser feitos. Será que o grupo de médicos que hoje contesta a MBE e segue opiniões próprias ou de colegas, antes seguia a ciência em suas respectivas áreas? No pós-pandemia continuarão contrários à aplicação da melhor informação científica no cuidado dos seus pacientes, dentro da sua especialidade? Ou retornarão a acreditar que o alicerce científico do médico, aliado ao valor humanitário é a melhor estratégia para conseguirmos os nossos objetivos? São questões que nos fazem pensar na existência do “médico de ocasião”, pois fica evidente que em algum momento, as boas práticas foram ou serão abandonadas em troca da autopromoção, consequentemente, o argumento do benefício ao paciente fica enfraquecido e passa a ser questionado.

Portanto, espero que a MBE continue sendo o grande elo entre a ciência e a arte médica, para evitarmos um temeroso retrocesso na assistência médica, pois objetivamos minimizar os erros, oferecer maior proteção e promover um estado de equilíbrio mental, físico e psicológico ao nosso paciente, enfim, promover saúde e salvar vidas!

 

Dr. Alcirley de Almeida CRM-PR 21.511

Cardiologista – Especialista em arritmia clínica

Prof. Faculdade de Medicina da Unioeste

Preceptor da Residência de Clínica Médica do HUOP

Coordenador da Residência de Cardiologia do HUOP

Preceptor da Enfermaria COVID-19 do HUOP

 

 

 

 

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